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Chovem duas chuvas: de água e de jasmins por estes jardins de flores e nuvens.
Sobem dois perfumes por estes jardins: de terra e jasmins, de flores e chuvas.
E os jasmins são chuvas e as chuvas, jasmins, por estes jardins de perfume e nuvens.
Cecília Meireles
Escrito por Caio Carmacho às 10h36
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Cultivo
Exprimir todo um sentimento Dizer algo agora Dizer algo now Diagonal Espírito vasto e assimétrico, varrido por luzes que batem, rebatem e quebram-se na aurora de um tempo que um único nome poderia conter... Onde, então, em que rumo me conter? Então onde, em que vícios próprios me perder? Privar-me - mesmo que momentaneamente - de minhas sombras e esparrar-me todo na eternidade deste instante Agora a aurora tem outro tom O tempo, um outro compasso O espaço, uma outra plenitude O pensamento projeta um campo de todo calmo, branco, branco, branco, branco... puro alvo Miro e acerto-me em cheio e sou sã, branda e branca paciência... Caroço, somente semente à espera de solo fértil para reflorescimento A uva esconde uma densidade não sugerida por sua simples forma circular O ciclo é vital Pedra à espera de um plano Pedra à espera de um mar Não um anteparo, nunca um cais, mas algo muito, muito, muito, muito mais além do gosto de molhar-me e lavar-me da secura que eu - pedra - contenho Depois, pedra, mais limpa ao mar, mais poder ser e mais completo no mar poder penetrar e ao mar todo me entregar, amando... Mas uva no campo, brilho resplandecendo nas parreiras, espero meu tempo alimentando sonhos Depois pisoteado sou Fermentado sou Maturado sou... Tudo para que, finalmente purificado, possa tocar teus lábios e, lentamente, começar a habitar teu corpo Brincar, por instantes, de esconder-me em cada pedaço do teu interior E assim, sorrindo e gratificado, vinho subirei à tua cabeça e de lá, de cabeça, mergulharei no teu coração Lembrarei do campo, da uva e do vento Sim, lembrarei do sopro do vento extraindo sons de minha espera Lembrarei de toda gestação, do percurso de uva a vinho, vinho corpo meu que bebeste... Líquido que hoje percorre, avançando sinais, todas as vias do teu interior.
Raimundo Gadelha
Poema extraído do livro "Para não esqueceres dos seres que somos"
Escrito por Caio Carmacho às 15h53
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HABEAS CORPUS
No Tribunal da minha consciência
O teu crime não tem apelação
Debalde tu alegas inocência
Mas não terás minha absolvição
Os autos do processo da agonia
Que me causaste em troca do bem que fiz
Correram lá naquela pretoria
Na qual o coração foi o juiz
Tu tens as agravantes da surpresa
E também as da premeditação
Mas na minh’alma tu não ficas presas
Porque o teu caso, é caso de expulsão
Tu vais ser deportada do meu peito
Porque teu crime encheu-me de pavor
Talvez o Habeas Corpus da saudade
Consinta o teu regresso ao meu amor
Escrito por Caio Carmacho às 15h47
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Olhocausto
Ovo, faca, seio a hora muda a moda muda o ovo, a faca e o seio
Caio Carmacho
Escrito por Caio Carmacho às 10h00
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Ossos, regras e coisas afins
Mexo os tamborins
Dos meus dedos ansiosos
Pra arrepiar a pele
Pra requebrar os ossos
Regras e coisas afins
Deixo pro fim de quarta
Quando a fantasia diz até breve
E se veste de gravata.
Tchello Melo
Escrito por Caio Carmacho às 09h55
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SÊMENÉDITO
O amor exige humildade. Recolher as roupas do quarto com a nudez morna, esquecida de seus transtornos.
Ela senta ainda com o sêmen entre as pernas, a invasão indefinida, pressionando o fluxo a lavar a promessa de filhos.
Eu me coloco no lugar dela e vejo que não aprendi a ser discreto.
Fabrício Carpinejar
Escrito por Caio Carmacho às 16h21
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Carnaval
Vamos ao que interessa,
Já que trabalho não enriquece,
Quero ser rico de folia
Milionário na alegria
Vou paro os blocos,
Que lá sou mais feliz
Sigo os cordões...
Onde um coro uníssono
Retumba em euforia,
Vou seguindo o trem da Central,
Atrás do bonde de Santa Tereza
Paro no Odeon que lá tem miscelânea
Amanhã é outro dia
Se o sol não sair,
Vai chover confete e serpentina
No final, cinzas e ressacas
Pena que você se foi Carnaval...
Adeus Pierrô, Arlequim e Colombina
Ainda com a cara pintada de palhaço,
Me entrego novamente a eterna fantasia
Américo Borges
Escrito por Caio Carmacho às 08h47
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OFÍCIO DE MORTE
Vamos pensar bem baixinho, para não incomodar o doente. Já tão acabado, tão trabalhador, tão brasileiro. E desde já, peço um minuto de silêncio por sua vida pré-datada e endividada.
Por favor, o assunto é sério. As conseqüências são fatais. E as causas, inúmeras. Mas o que sei e posso revelar, é que diante desta georadiografia nacional, o estado é péssimo. O estado é injusto, o estado cobra impostos excessivamente. O estado é de morte! E as doenças estabelecidas, gravíssimas. O subdesenvolvimento do salário, cientificamente apontado como a moléstia causadora da terrível dor de estômago vazio. A embolia dos transportes, que resulta na fatal falta de tempo. Revelando uma sensação desagradável de impotência diante de sua própria vida. A ausência de condições de trabalho é outra doença grave; geradora da indignidade, da tristeza e do medo. Como pode ver, se ainda tiver este sentido funcionando, o caso é terminal e tem dimensões epidêmicas. Visto o tratamento negligente dos profissionais em relação à legislação trabalhista. Um conjunto falido de leis que sofrem uma constante morte agônica, e que não serve para nenhuma das partes envolvidas. Embora, faça a felicidade dos elegíveis agentes do governo funerário. Concebendo assim, um saudável jogo letal, em que o lado mais fraco tem de ser o mais enfermo. E se formos dar prosseguimento ao laudo do exame do trabalhador brasileiro, encontraremos a medonha fobia do desemprego. Um medo explicável a partir do excesso de oferta no mercado, gerando também o vírus da informalidade desqualificada. Um risco nefasto para uma nação em desenvolvimento, carente de vitaminas e sais minerais. Assim como os filhos do trabalhador deste país, que sofrem por não terem suas necessidades atendidas. Para, desde já, irem se acostumando com as mazelas que sofrerão no futuro. Como a amputação do lazer, que causa fortes distúrbios de pensamento e impossibilidade de concentração para assuntos relevantes. Outra moléstia sem remédio é a cauterização educativa, que aprisiona a trabalhadora vítima na quarentena da ignorância, ou da especialização hermética. Tudo isto, todas estas doenças mostram um quadro clínico de falência múltipla das funções de cidadania. Criando a indigência do trabalho, revelando o trabalhador como um frustrado diante da atual mediocridade que se encontra. Não importando se o mau é uma queimadura no cartão de crédito ou a fratura pela queda do caminhão de bóia-fria. O fato é que a morte está próxima. Os aparelhos econômicos que dão um ar para o assalariado serão desligados neste momento, por contenção de despesas. Abaixe sua cabeça em respeito, mesmo que isso te impeça de continuar lendo. Não me importo. Somente me interesso em aliviar a dor deste pobre incurável. Que nunca teve a oportunidade de ter algo verdadeiro em vida, mesmo tendo feito a sua parte dignamente. Mas ele, o trabalhador brasileiro, já não está entre nós. Paradacardiocompulsória. O assalariado debateu-se e agonizou. Um pouco menos do que estava acostumado no cotidiano, e depois, virou sua cabeça para a esquerda. E murmurou nesta direção: "Pai, por que me abandonaste." E a nós, resta uma vida de lida enlutada. Resta a voz enferrujada para cantar neste Funeral de um Trabalhador.
Esta caixa em que estás de madeira roída,
Foi das melhores coisas por ti conseguida.
Pois mesmo morto seu nome foi ecoado,
Nas ruas, vielas e esquinas do mercado.
Seus amigos fizeram uma esmola de lista,
Para você apodrecer longe de nossa vista.
E esteja feliz com o valor conseguido,
Pois seriam anos de salário seu sofrido.
Sua esposa e filhos choram de dor,
Mas também o peso de ser trabalhador.
E não fique triste pelas faltas na vida,
Porque agora falta vela, padre e margarida.
Flávio Assum
18/01/2005
Escrito por Caio Carmacho às 08h06
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