NOUTRATEZ


MINHA GLICOSE TEM NOME

Três pequenos poemas que integram o livro "Poemas Rupestres"

 

- VENTO

Se a gente jogar uma pedra no vento

Ele nem olha para trás.

Se a gente atacar o vento com enxada

Ele nem sai sangue da bunda.

Ele não dói nada.

Vento não tem tripa.

Se a gente enfiar uma faca no vento

Ele nem faz ui.

A gente estudou no Colégio que vento

é o ar em movimento.

E que o ar em movimento é vento.

Eu quis uma vez implantar uma costela

no vento.

A costela não parava nem.

Hoje eu tasquei uma pedra no organismo

do vento.

Depois me ensinaram que vento não tem

organismo.

Fiquei estudado.

 

- TEOLOGIA DO TRASTE

As coisas jogadas fora por motivo de traste

são alvo da minha estima.

Prediletamente latas.

Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.

Se você jogar na terra uma lata por motivo de

traste: mendigos, cozinheiras ou poetas podem pegar.

Por isso eu acho as latas mais suficientes, por

exemplo, do que as idéias.

Porque as idéias, sendo objetos concebidos pelo

espírito, elas são abstratas.

E, se você jogar um objeto abstrato na terra por

motivo de traste, ninguém quer pegar.

Por isso eu acho as latas mais suficientes.

A gente pega uma lata, enche de areia e sai

puxando pelas ruas moda um caminhão de areia.

E as idéias, por ser um objeto abstrato concebido

pelo espírito, não dá para encher de areia.

Por isso eu acho a lata mais suficiente.

Idéias são a luz do espírito - a gente sabe.

Há idéias luminosas - a gente sabe.

Mas elas inventaram a bomba atômica, a bomba

atômica, a bomba atôm.............................

............................................. Agora

eu queria que os vermes iluminassem.

Que os trastes iluminassem.

 

- ANTÔNIO CARANCHO

Me chamam de Antônio Carancho:

Carancho é por maneira que eu ando de pé virado

Moda carancho mesmo.

Pra bobo eu não sou condicionado.

Sou mais garantido de cantor.

Porém meu canto é fechado.

Lastreadamente sou Antônio Severo dos Santos.

Carancho é de caçoada.

Tenho vareios no olhar as coisas.

Chego de ver vaidade nas garças.

Eu ouço a fonte dos tontos.

Pedra tem inveja aos lírios.

Isso eu sei de espiar.

Eu combino melhor com árvores.

Totalmente ao senhor eu falo:

Quem ouve a fonte dos tontos não cabe mais

dentro dele.

Outra pessoa desabre.

 

Manoel de Barros



Escrito por Caio Carmacho às 19h51
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- A falta que ama

Entre areia, sol e grama

O que se esquiva se dá,

Enquanto a falta que ama

Procura alguém que não há.

Está coberto de terra,

Forrado de esquecimento.

Onde a vista mais se aferra,

A dália é toda cimento.

A transparência da hora

Corrói ângulos obscuros:

Cantiga que não implora

Nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira

Que o gesto espalha no chão.

A vida conta-se, inteira,

Em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa

O pensamento, na luz?

E por que nunca se escoa

O tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado

Na concha ardente do dia

Une o tédio do passado

A uma futura energia.

No solo vira semente?

Vai tudo recomeçar?

É a falta ou ele que sente

O sonho do verbo amar?

 

Carlos Drummond de Andrade



Escrito por Caio Carmacho às 19h25
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Síntese

 

Desconfie dos que não fumam...

Desacredite nos que não bebam!

 

(Val Borges)



Escrito por Val Borges às 16h50
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IRONIA CANIBAL

Pelas minhas contas, devo
ter comido, até hoje, 4.237 frangos e galinhas,
22 bois
e exaurido um pequeno lago de lulas,
trutas,
ostras,
lagostas
e sardinhas.

Passarinhos, jamais.
Só em terrinas, e, mesmo assim, na França.
Vegetariano e feminista eu sou, contudo.
Por isto, em festa ou mudo,
comi também 69 mulheres
- com pena e tudo.



Affonso Romano de Sant'Anna

Escrito por Caio Carmacho às 10h21
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- O passante

O passante
não é atrevido,
é omisso.

Um sozinho
aleatório
no tempo e nos espaços.

Nada mais
indiferente

Anula tudo
em passo vago
como um dividendo das horas.

E lá se vai
no véu da noite
mais um qualquer,
mais um passante...


Caio Carmacho


Escrito por Caio Carmacho às 10h18
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Eita vida,

Que me foge a cada trago de cigarro,

A cada gole da bebida consumida...

(Ricardo Ramos)



Escrito por Val Borges às 21h10
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7

Este poema exigiu 7 folhas de papel.
Para escrevê-lo já fumei raivosamente 7 cigarros
e rasguei-o 7 vezes.
7 é um mau número: é o número 13 da minha vida.
Segundo várias aritméticas, não é divisível por 2,
e eu tenho horror a todos os números (e a todas as coisas)
não divisíveis por 2.
Sexta-feira, 7...
Isto hoje não acaba bem...
Vai a chuva ficar chovendo para sempre.
O meu relógio vai continuar disparado,
marcando horas inexistentes.
Ah se os ponteiros andassem para trás!
Ah se ao menos a chuva chovesse para cima
e eu fizesse destes nulos versos
uma folha noturna e molhada!


Abgar Renault

Escrito por Caio Carmacho às 12h50
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