um poema feliz seríamos nós dois caminhando feito bobos de risos e galáxias com passos de dança numa rua sem gravi- dade somos dois astronautas indo comprar pão
Eu gosto dele. como quem gosta. De um quadro na parede. nem torto, nem feio, nem chato. um porta retrato. mudo. me sorrindo sempre. sem discordar, implicar, reclamar. ou deixar de sorrir. tão bacana. que até enjoa.
Conversando a infância e a morte como dois adolescentes. Procurando memória para imaginar. Medindo os braços com a boca. Não achando a maçaneta dos olhos.
Abraçados como dois pugilistas recuperando o fôlego.
A lutar contra o sono. As pálpebras frágeis como cadeiras de praia. Senta-se ao fundo para não cair.
A porta está ali e não serve. O telefone está ali e não serve. A janela está ali na condição de espelho.
Apaixonar-se é não ter para onde ir porque já se chegou. É não ter como fugir porque já se encontrou. É não ter mais escolha.
O cansaço vai agravando a verdade. Não há mentiras, não há esconderijos, não há roupa para disfarçar a palavra.
Os travesseiros são duas crianças brincando de estátua.
Continua-se a conversa sem compreender. Continua-se para compreender.
Os problemas somem e se redimem. As estrelas param de beber. Os telhados param de fumar. Os insetos apagam as lâmpadas.
Os vícios são perdoados pelo viço.
O rosto expulsa o vidro com cuidado. Como se o acidente daquela madrugada fosse liberar os estilhaços no decorrer dos anos.
Não deveria ser permitido receber tanto. Não deveria ser permitido dar tanto. Inventa-se uma dor para suportar a alegria.
O que foi vivido mudará. O que não foi vivido perturbará.
Todo adeus será covarde. Não pode ter sido tudo aquilo - não pode ser só aquilo.
Nada apagará a intimidade do homem ser louvado pelos seios, ser preso pelos quadris, represado pelo pescoço.
O cansaço da insônia é maravilhoso. O cansaço da insônia do amor é maravilhoso.
Dorme-se no trabalho depois, dorme-se no ônibus depois, dorme-se sentado depois.
Passar uma noite acordado por uma mulher é ganhar uma vida para dormir em segredo.
Fabrício Carpinejar Escrito por Caio Carmacho às 12h24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
Tacada de mestre
olhos contraídos refletem o veloz descaso
para com o vídeo que passa para com os cigarros que passam e para com as pessoas que passam e falam mas não param
olhos distraídos refletem duas coisas sobre a mesma coisa
/o divino observado e o observador divino\
a vontade sobrepujada em olhos fixos
e tudo denuncia e fica perdido num jogo impreciso
ele se escora nas paredes como um justiceiro derramado
mira bem o olho da morte e se entrega inteiro ao quebranto
Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo, os meus gostos crimino e busco, em vão torcê-los; é incrível a paixão que me absorve por tudo quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... Os pêlos...
Amo as noites de luar porque são de veludo, delicio-me quando, acaso, sinto, pelos meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.
Pela fria estação, que aos mais seres eriça, andam-me pelo corpo espasmos repetidos, às luvas de camurça, às boas, à pelica...
O meu tato se estende a todos os sentidos; sou toda languidez, sonolência, preguiça, se me quedo a fitar tapetes estendidos.
Gilka Machado Escrito por Caio Carmacho às 11h48
[ ]
[ envie esta mensagem ]