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Agência Prudente de Morais
Deixei tudo lá. Deixei tudo, até mesmo a velha crença em milagres.
Nas mãos do segurança do banco eu deixei as chaves, a bolsa, o coração e os ossos, deixei tudo o que levava nos bolsos e no corpo porque o alarme não parava de soar.
Nas mãos do segurança eu deixei os brincos e os anéis, o pâncreas e os pulmões, deixei tudo o que eu tinha e até o que nem sabia que tinha: o câncer no útero, o medo de lugares abertos, a vontade de aprender a dançar.
O alarme não parava de soar, simplesmente não parava, a porta-giratória travou e eu não tive coragem de olhar pra trás, pra fila aflita que me vigiava.
Deixei tudo, os sapatos, a roupa, as unhas, o estômago e todas as lembranças. Nas mãos do segurança do banco eu deixei as viagens que planejava fazer, os namorados, os filhos que ainda não tive.
A porta giratória travou entre a vida de lá e a de cá e eu tive muito medo de ficar presa nesse intervalo econômico. Então eu entreguei tudo, até mesmo o outono, o sorriso e os meus melhores aniversários.
Deixei tudo lá. Deixei tudo, até mesmo os dezesseis mil beijos que você me deu, os ardentes e os protocolares.
Sem mais nada para incomodar o alarme, eu decidi ir embora. Fui até o carro e vi que não tinha mais carro. Voltei para casa e vi que não tinha mais casa. Eu não tinha mais nada, eu não tinha nome, eu não tinha eu.
A verdadeira força, a sublime missão dos alarmes, dos seguranças e dos bancos é essa: libertar a humanidade dos pesos e das medidas indóceis.
Faltam dois dias para o ano-novo, a cidade continua viva e eu sei, ah, mesmo sem as antigas crenças eu sei que no vaivém das portas giratórias enquanto houver finanças e seguranças fenômenos mais espantosos estão para acontecer.
Valério Oliveira
Escrito por Caio Carmacho às 16h55
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- aos cultos
a minoria privilegiada se ocupa em digerir homero, grécia antiga, mitologias como se esse movimento compreendesse humanidade em demasia
para mim, eu mortal de macumbas, quedas aéreas, amores e balas perdidas acho isso além de falível, impossível
ficar falando em olimpo, narciso e dionísio
minhas divindades são outras
aos domingos na tevê, usam fio dental; jogam futebol pelo cachê mais alto; transam, mentem, brigam, roubam e cagam demais no pau
minhas entidades nasceram e se foram abraçadas à mortalha de seus apelidos
e no entanto, vivem ainda subordinadas aos ecos dos becos e das rodas de samba
eternamente inquilinos
por meus motivos desgarrados, falo aos incréus:
zeus, fica na boa aí com seus deuses que eu fico aqui com os meus
Caio Carmacho
Escrito por Caio Carmacho às 10h44
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hoje, enquanto o dia gritava seus lugares, lembrei de quando
cresci.
cresci numa tarde dessas em que o vento parece
saudoso suado e num deslize respira o rosto e devaneia.
cresci como quem atravessa o trigo arranca das árvores as folhas
boas e de qualquer vertigem passageira o vestido.
cresci chorando
sobre um gramado roxo, destemperado, que nos invernos cobria meus pés de
terra e formigava.
cresci diante dos meus olhos épocas - um só
corpo ensolarado enjoado.
eu ri quando cresci.
e despejei
rumores, meias escuras e copos pela metade.
assim que a noite, não
tão noite mas ríspida, viu meus braços se alongarem, os cabelos formarem
cachos, eu desfiz.
tramei meu conto.
quando cresci, o cruzar
de pernas que minha mãe ensinou, o tom de voz que me era permitido, a
blusa de tricô que escondia os mamilos,
amargaram.
foi então
que amanheci.
cobri o embaraço com pitangas à boca mergulhei onde era
raso desejei os meus pudores e me vi quando era quase
entristecer.
eu cresci e na moldura dos traços rastros,
lastros eu te vi:
é um túnel.
Lorena Poema
Escrito por Caio Carmacho às 09h53
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noir

vagamente
o silêncio cresce, cresce
unânime às coisas tradicionais
humanizando & mortificando
confere aos móveis da sala, aos copos cristais e pratos belgas essa ausência de amor e um quê de querer
uma sentida suspensão dos sentidos
a luz dorida do quarto, dos lençóis e dos pés descalços da velha cômoda
tu saíste portafora tão triste quando lhe disse
sem resistências
que hoje eu comia o pirão da vizinha
já fadado de receitas tão antigas
Caio Carmacho
Escrito por Caio Carmacho às 08h36
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Moloko
Meu corpo implora por descanso
Eu paro, penso e nego o
apelo
Sentado no bar da rua Riachuelo
Ao lado do bardo Dudu
Pereira convoco a primeira saideira que assanhada se insinua em
nossos copos à medida que a noite cai
Noite caída/Casa
caiada Meu coração é de nada...
Mas continua
batendo!
Daniel Soares
Escrito por Caio Carmacho às 12h30
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