NOUTRATEZ


A crença inabalável


Minha crença não muda.
Ainda vejo as crianças
De mãos dadas com a vida.
Sorrio com elas
Quando caem no chão.

Minha crença não muda.
Não cortarei os sonhos de ninguém
Com indagações sobre as impossibilidades.
Nem partilharei comentários de que, se Deus
Quisesse que o homem voasse
Lhe daria um par de asas.

Minha crença não muda
Quando todas às vezes que for defrontado
Com os dilemas de que a vida não vale a pena
Me opor.
E ao opor-me, juntar-me àqueles que entendem
Que a vida vale por si mesma.
Mesmo se a felicidade não nos sorri às vezes.

Minha crença não muda.
Mesmo caído, ou propenso a uma nova queda,
Ter na alma o desejo de levantar novamente.
Um irracional poderá até fazer coisas semelhantes,
Mas o homem será sempre homem,
Mesmo no pior estágio que se encontre.


Por maior que seja a tempestade
Mais belo será o raiar da quietude.
A luta justifica a vitória
Mas a guerra não justifica a paz.

E inda que rodeado
Pelas coisas mutáveis,
Como a carne que envelhece,
Ter nos dias a renovação
Das coisas atemporais,
Revogadas pelo amor que não tem marcas
Expressivas do tempo.

Que a capacidade de continuar
Seja o melhor conselho a dar e a ouvir.
A fé ainda é mais forte que a esperança.
Porque a esperança, por ser razão
É a última que morre.
A fé, por ser sobrenatural,
É a primeira que ressuscita.

 

Flávio de Araújo



Escrito por Caio Carmacho às 13h50
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Fino sangue

 
Gosto de poema
que fala de ovo frito
latido de cão
e cheiro de queimado.
Poema que com pequenos cortes
vara as coisas pequenas
fura a casca
o odre
rasga a placenta
e deixa gotejar
o fino
sangue.
 
 


Escrito por Caio Carmacho às 16h20
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- lição 100% algodão

 

a mãe adoeceu

não teve jeito,

 

aprendeu sozinho a lavar

as próprias roupas

 

desde então

nunca mais tirou da cabeça

as pequenas coisas

 

importantes

 

a mãe, o alvejante

 

Caio Carmacho



Escrito por Caio Carmacho às 16h16
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O enigma de Hempel

todo corvo é preto

e cada corvo preto

confirma o negrume dos corvos.

 

se todo corvo é preto então

todo não-preto é não-corvo

e se todo não-preto é não-corvo

então todo corvo é preto.

 

todo corvo é preto

todo não-preto é não-corvo

e cada não-preto não-corvo

- cada folha verde cada onda

azul cada gota de sangue -

prova o negrume dos corvos.

 

Antonio Cicero



Escrito por Caio Carmacho às 15h28
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Receita de botequim

Enchê-lo de cachaça e de confidências.
Esvaziá-lo da cachaça
e enchê-lo mais ainda de confidências.
Esvaziar-se.
Não há limites para o copo,
nele cabem todas as confidências.
Há limite para a cachaça que ele deve conter.
Doses pequenas,
para não serem viradas de uma só vez.
Até que a garrafa se esvazie e já não haja confidências para fazer.
Até que o copo se esvazie da última gota da bebida
e tenha ouvido a última palavra das confidências.
Então o copo deve ser quebrado e jogado fora.
Ele sabe demais

 

Anatole Ramos



Escrito por Caio Carmacho às 15h17
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Desprego as estrelas,

deixo que elas

rolem céu abaixo

soltas do seu facho

frio, iridescente,

ricochete rente

ao chão adormecido.

Cobres,

estrelas de pobre,

moedas

que dobram na queda,

vão metal.

O mesmo que falta

às nossas mais altas

intenções, e nos deixa

(é sempre a mesma queixa)

nesse vai-da-valsa:

com as mãos repletas

de palavras certas,

de moedas falsas.

 

 

Claudia Roquette-Pinto



Escrito por Caio Carmacho às 15h10
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- sangue quente

 

 

qual a diferença vital entre

o texto que se lê e o texto em si

lido?

não sei.

talvez seja uma questão de ordem

métrica;

 

o tamanho expectante³ da

e pela fala agônica

): falsa ou não (:

do riso

 

do amor crítico

místico

platônico cínico

 

ou talvez mais

- metaforicamente falando -

um simples meneio, um gesto apropriado

à espera de um cigarro

 

um quadro antigo

de um naufrágio esquecido

 

o nascimento-

lançamento recôndito

de uma nova ária (ou área ou areia ou nada,

como preferirem)

de conhecimento

 

trocar a razãomaisquecompleta

a coisa pop preta

o vórtex cerebral

ou o tutano da centopéia

 

por outros membros familiares ao previsível

sentido

 

tudo dá-se um jeito:

rinha, jogatina, figurinhas

de tabuleiro

 

nosso instinto nos leva

eleva

leves      vai,

 

sozinho ó balãozinho

adiante

 

coraçãozinho ruminante e sem fim

 

trago insensato do instante

 

 

Caio Carmacho



Escrito por Caio Carmacho às 14h59
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Negra Melodia

,VulgoQinho&OsCara



Escrito por Caio Carmacho às 15h52
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A NOITE


A noite é uma planície
deserta
ou páramo
é sombra de sons
(numa esquina)
...
incerta
concorrência de palavras
anãs
ou contraída
luz elétrica
...
no quarto vazio
noite
do alto de vosso silêncio
entretanto
...................me pronuncio.
 
 
Régis Bonvicino


Escrito por Caio Carmacho às 15h41
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- Não há vagas

 

 

O preço do feijão

não cabe no poema. O preço

do arroz

não cabe no poema.

Não cabem no poema o gás

a luz o telefone

a sonegação

do leite

da carne

do açúcar

do pão

 

O funcionário público

não cabe no poema

com seu salário de fome

sua vida fechada

em arquivos.

Como não cabe no poema

o operário

que esmerila seu dia de aço

e carvão

nas oficinas escuras

 

- Porque o poema, senhores,

está fechado:

“não há vagas”

 

só cabe no poema

o homem sem estômago

a mulher de nuvens

a fruta sem preço

 

O poema, senhores,

não fede

nem cheira

 

 

Ferreira Gullar



Escrito por Caio Carmacho às 13h51
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princesa xuxa contra o baixo astral

(e/ou profissão sonhador)

 pois é
ninguém botava fé
mas fui assim mesmo
fazer meu mapa astral

saber o que dentro do arcabouço,
do cabelo revolto e da arcada
dentária

me soava tão banal

não sabia que raios
deu errado
quando a vidente em frangalhos
num pulo desajeitado

negritou bolada com sério pesar

'teu aquário
tem peixe pra ca-ra-lho'

nessa hora me bateu uma nudez muda
chuta que é macumba!

 

 Caio Carmacho



Escrito por Caio Carmacho às 13h36
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