trapézio
Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora. Eu queria ser trapezista, minha paixão era o trapézio. Me atirava do alto na certeza que alguém segurava-me as mãos não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo, tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo. Do que não ficava pra sempre.
antônio bivar
Escrito por Caio Carmacho às 15h26
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gravuras espelhos e achados
amor é a letargia do espírito, assim como a liberdade demasiada
às vezes é necessária uma pedra para matar as coisas livres,
as coisas que amam
às vezes a morte é necessária para o surgimento
de uma nova vida, nova coisa, novo amor
mas como eu disse, por mais que nos enganemos
é sempre bom preservar as camisas furadas
e o senso comum do que fica
às vezes
caio carmacho
Escrito por Caio Carmacho às 16h34
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Mensagem
Há que haver os loucos, os alucinados, os videntes, cujo lúcido espírito não repouse como um cadáver sobre este mundo visível e as verdades consagradas, e cuja voz profunda exprima o eco e as flutuações das águas eternas e inaudíveis que são o destino de todos os barcos.
Há que haver os que despertam à meia-noite angustiados, e põem-se a gritar e a clamar dentro das trevas como uns loucos - não o sendo - e exprimem numa linguagem que não é a sua, nem a de seus pais, nem a de qualquer outro povo da terra, estranhas visões inacessíveis gravadas em suas retinas, e depois serenam como o mar após a tempestade e não sabem mais recordar aquilo que disseram, e choram quando lhes mostram seus puros êxtases, e sentem-se miseráveis despertados.
Há que haver os que deixam que suas finas mãos de marfim, pálidas, sinuosas, quase fluidas, se arrastem como profetas pelo deserto das longas pautas e inconscientemente, totalmente a cegas, gravem para a eternidade, como num frio rochedo, palavras de fogo e de sangue, ânsias, ódios, espantosos desesperos, para depois se admirarem eles próprios daquilo que escreveram, como sonâmbulos que, de repente e a sós, despertassem vivos sobre o cume de inatingíveis montanhas e não mais soubessem o caminho que os conduziu a tão altas paragens, tão perto dos deuses.
Há que haver os que abandonam o lar, pátria, amigos, cidade, velhos hábitos e confortos seculares, e sem levar nada de seu, apenas sua consciência desarvorada e lúcida, põem-se a perseguir novas e estranhas verdades, como que hipnotizados, e não mais repousam e dormem, em sua peregrinação, noite após noite, sol após sol, até que sintam a paz descer como um bálsamo sobre as suas chagas e vejam enfim mais nítido dentro da própria alma, e pela primeira vez se reconheçam em toda a sua nudez, como o amante à amante no momento supremo da posse.

Campos de Carvalho
Escrito por Caio Carmacho às 16h09
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maus lençóis
pernilongos tocam post-
rock nos meus ouvidos
os gatos nos telhados,
as imagens invertidas
e a vizinha aos gemidos
numa cidade que não existe
que poderia se chamar são paulo
amapá talvez recife
um estudante de ciências sociais
bate punheta pro manifesto comunista
como fez um dia olavo bilac
longe da cena marxista, existe uma fita furtada
que repousa sã e salva em uma prateleira qualquer
do projac
novos clássicos pra juventude perdida
apresentando: antônio alves, taxista
caio carmacho
Escrito por Caio Carmacho às 15h10
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limpo e seco
Mão pesada, apesar da advertência. Não toque assim, diante do leitor que hesita em ler na sua página a matéria até agora em convulsão.
Embora amor, deixe que amanheça o gesto que a noite carregou. Acalme, corrija o coração, a cor vermelha ainda com muito sangue.
Deixe que o pensamento pare na folha do dia claro. No verde rigoroso imaginado, pois daqui, de longe não dá para calcular o mar.
Armando Freitas Filho
Escrito por Caio Carmacho às 16h07
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