NOUTRATEZ


copo vazio

é sempre bom lembrar
que um copo vazio
está cheio de ar

é sempre bom lembrar
que o ar sombrio de um rosto
está cheio de um ar vazio
vazio daquilo que no ar do copo
ocupa um lugar

é sempre bom lembrar
guardar de cor
que o ar vazio de um rosto sombrio
está cheio de dor

é sempre bom lembrar
que um copo vazio
está cheio de ar

que o ar no copo ocupa o lugar do vinho
que o vinho busca ocupar o lugar da dor
que a dor ocupa a metade da verdade
a verdadeira natureza interior

uma metade cheia, uma metade vazia
uma metade tristeza, uma metade alegria
a magia da verdade inteira, todo-poderoso amor
a magia da verdade inteira, todo-poderoso amor

é sempre bom lembrar
que um copo vazio
está cheio de ar


gilberto gil

Escrito por Caio Carmacho às 17h04
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batiks

tela beat batik
desenho em v da gaivota sobre o litoral
dando uma leve cagadinha sobre a cêra
inaugurando no reino de fernão
o que viria a ser a arte-final


caio carmacho

Escrito por Caio Carmacho às 16h39
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louvor ao picaretismo

intermezzo dupla face:





Escrito por Caio Carmacho às 19h29
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baldeação

sempre que em trânsito
a mente não consegue tomar o partido
nem dos romances passageiros
nem dos reconhecimentos de vida fora

julga todas as crianças
de alguma forma
perdidas

lembra da Veronika Voss
dizendo algo como toda a gente
fica mais bonita quando se despede

repara numa das bodegas da Rodoviária
chama-se Viajantes
acha isso poético
então mete isso num poema
torcendo para que isso se torne
de alguma forma
poético para os outros também

é difícil escrever de dedos cruzados.


ismar tirelli neto

Escrito por Caio Carmacho às 16h44
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memória

Amar o perdido
deixa confundido este coração
Nada pode o olvido
contra o sem sentido apelo do não

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas
essas ficarão


carlos drummond de andrade

Escrito por Caio Carmacho às 16h07
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trapézio

Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora. Eu queria ser trapezista, minha paixão era o trapézio. Me atirava do alto na certeza que alguém segurava-me as mãos não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo, tinha medo de tudo quase: cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo. Do que não ficava pra sempre.

antônio bivar



Escrito por Caio Carmacho às 15h26
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PROMO

ficarodara!



Escrito por Caio Carmacho às 15h04
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vão mover os automóveis a sangue de lagarto
vão terminar com todas as misérias das regiões
vão tramar soluções brilhantes
poruma questão de hábito
uma questão de ordem interna
como quatro estômagos não faz melhor digestão

enquanto estiver derramado não se limpará o sangue
enquanto estiver enforcado não se cortará a corda
os retratos rasgados serão recompostos
os retratos falados emudecidos
as amizades recentes desencorajadas
porque ficará brilhante e pesado como uma bola de rollerball
porque de natal em natal mais bola se quebra
porque de vidro moído será o vitrô da capital
e as bocas abertas babarão um sono indisfarçável
e mil cogumelos de idéias burras envenenarão o pasto
e não se fará promessas a nenhum oxossi da mata
de onde os pequenos gaviões voarão em busca de alimento
e as cobras e os animais rasteiros serão exterminados
poruma questão de ordem interna
como quatro estômagos não faz melhor digestão


charles peixoto

Escrito por Caio Carmacho às 17h09
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gravuras espelhos e achados

amor é a letargia do espírito, assim como a liberdade demasiada

 

às vezes é necessária uma pedra para matar as coisas livres,

as coisas que amam

 

às vezes a morte é necessária para o surgimento

de uma nova vida, nova coisa, novo amor

 

mas como eu disse, por mais que nos enganemos

é sempre bom preservar as camisas furadas

e o senso comum do que fica

 

às vezes

 

 

caio carmacho



Escrito por Caio Carmacho às 16h34
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Mensagem

Há que haver os loucos,
os alucinados, os videntes,
cujo lúcido espírito não repouse como um cadáver
sobre este mundo visível e as verdades consagradas,
e cuja voz profunda exprima o eco e as flutuações
das águas eternas e inaudíveis
que são o destino de todos os barcos.

Há que haver os que despertam à meia-noite
angustiados,
e põem-se a gritar e a clamar dentro das trevas
como uns loucos - não o sendo -
e exprimem numa linguagem que não é a sua,
nem a de seus pais,
nem a de qualquer outro povo da terra,
estranhas visões inacessíveis gravadas em suas retinas,
e depois serenam como o mar após a tempestade
e não sabem mais recordar aquilo que disseram,
e choram quando lhes mostram seus puros êxtases,
e sentem-se miseráveis despertados.

Há que haver os que deixam que suas finas mãos de marfim,
pálidas, sinuosas, quase fluidas,
se arrastem como profetas pelo deserto das longas pautas
e inconscientemente, totalmente a cegas,
gravem para a eternidade, como num frio rochedo,
palavras de fogo e de sangue,
ânsias, ódios, espantosos desesperos,
para depois se admirarem eles próprios daquilo que escreveram,
como sonâmbulos que, de repente e a sós,
despertassem vivos sobre o cume de inatingíveis montanhas
e não mais soubessem o caminho que os conduziu a tão altas paragens,
tão perto dos deuses.

Há que haver os que abandonam o lar, pátria, amigos, cidade,
velhos hábitos e confortos seculares,
e sem levar nada de seu,
apenas sua consciência desarvorada e lúcida,
põem-se a perseguir novas e estranhas verdades,
como que hipnotizados,
e não mais repousam e dormem, em sua peregrinação,
noite após noite, sol após sol,
até que sintam a paz descer como um bálsamo sobre as suas chagas
e vejam enfim mais nítido dentro da própria alma,
e pela primeira vez se reconheçam em toda a sua nudez,
como o amante à amante no momento supremo da posse.


Campos de Carvalho


Escrito por Caio Carmacho às 16h09
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escrever em absurdez faz causa para poesia

eu falo e escrevo absurdez.

me sinto emancipado.

 

 

manoel de barros



Escrito por Caio Carmacho às 15h32
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maus lençóis

 

 

 

pernilongos tocam post-

rock nos meus ouvidos

 

os gatos nos telhados,

as imagens invertidas

e a vizinha aos gemidos

 

numa cidade que não existe

que poderia se chamar são paulo

amapá talvez recife

 

um estudante de ciências sociais

bate punheta pro manifesto comunista

como fez um dia olavo bilac

 

longe da cena marxista, existe uma fita furtada

que repousa sã e salva em uma prateleira qualquer

do projac

 

novos clássicos pra juventude perdida

apresentando: antônio alves, taxista

 

 

caio carmacho



Escrito por Caio Carmacho às 15h10
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limpo e seco

Mão pesada, apesar da advertência.
Não toque assim, diante do leitor
que hesita em ler na sua página
a matéria até agora em convulsão.

Embora amor, deixe que amanheça
o gesto que a noite carregou.
Acalme, corrija o coração, a cor
vermelha ainda com muito sangue.

Deixe que o pensamento pare na folha
do dia claro. No verde rigoroso
imaginado, pois daqui, de longe
não dá para calcular o mar.

 

Armando Freitas Filho



Escrito por Caio Carmacho às 16h07
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