Naquele tempo falavas muito de perfeição, da prosa dos versos irregulares onde cantam os sentimentos irregulares. Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,
agora lês saramagos & coisas assim e eu já não fico a ouvir-te como antigamente olhando as tuas pernas que subiam lentamente até um sítio escuro dentro de mim.
O café agora é um banco, tu professora do liceu; Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu. Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes, e não caminhos por andar como dantes.
cobrei dos teus olhos o que não cobraria da tua alma. lá fora o vento deságua, fraco como a memória. restam apostas ganhas perdidas nos bolsos. estamos sozinhos agora que somos a cor da junção. e isso é tudo: você e eu. e lá fora peixes azuis.
eles vão combinar, pensa ela, mas só se a coluna dela se encaixar exatamente no peito dele e só se os joelhos dele se acoplarem bem atrás dos dela, e todos quatro concordarem num ângulo comum.
tudo estaria bem, se ao menos pudessem encarar um ao outro.
ainda assim há compensações por terem de se encontrar nariz contra nuca tórax contra espátula virilha contra nádega quando dormem.
parece, ao menos, que estão indo na mesma direção.