NOUTRATEZ


o amor, este náufrago

ilhado
entre o horizonte e o mar

sonhando acordado
na fenda secular
de cada dia

desastrado que é

no seu labor de

vida

engendra
gestos artificiais
&
flores do mais

no jardim onde dois
pares de remelas

são milagres matinais


caio carmacho



Escrito por Caio Carmacho às 23h33
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A carne é triste depois da felação

A carne é triste depois da felação
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
Após esse tremor? Só esperar
Outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já dilui o orgasmo na lembrança
E gosma
escorre lentamente de tua vida



Escrito por Caio Carmacho às 10h02
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diálogos com gullar

foto: Tomás Rangel

 

a convite do generoso Ramon Mello, participei da homenagem coletiva que o Portal Literal prestou ao poeta Ferreira Gullar, que completou 82 anos no dia 10 de setembro. escolhi o poema 'registro' do livro 'em alguma parte alguma' para dialogar com a obra do mestre e com as várias vozes que ali estão.

além de mim, participaram do esquema os-as poetas Alice Sant'Anna, Ana Beatriz Ferreira Batista, Ana Guadalupe, Ana Salek, Augusto Guimaraens Cavalcanti, Daniel Rolim Rocha, Daniela Santi, Diego Grando, Gabriel Pardal, Heyk Pimenta, Leandro Jardim, Pedro Rocha, Letícia Novaes, Letícia Simões, Luca Argel, Lucas Viriato, Maria Cecilia Brandi, Maria Rezende, Márvio dos Anjos, Pedro Lago e Victor Heringer.

taí o link da brincadeira: http://migre.me/aRyEs



Escrito por Caio Carmacho às 09h13
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da urgência das coisas

a ambição
possui 7 cabeças
que pensam sozinhas
individualmente

seu delírio
não pode ser medido
por uma trena invisível


hoje acordei e ao meu lado
dormia profundo o sonho da casa própria
o carro do ano que nunca terei
as deusas gregas do photoshop
os lençóis de 600 fios
as viagens imaginárias ao velho continente
a tv de led 3D
a ilha de caras
e o número certeiro da mega-sena

aos poucos a utopia
vira ruína
artigo de galeria

e eu te pergunto, meu chapa
sua vida sem um iPhode
foi só alegria?


caio carmacho


Escrito por Caio Carmacho às 09h06
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Uma definição

amor é uma luz à

noite atravessando o nevoeiro
amor é uma tampinha de cerveja
pisada no caminho
do banheiro
amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado


amor é o que acontece
uma vez a cada dez anos

amor é um gato esmagado

amor é o velho jornaleiro na
esquina que
desistiu

amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu

amor é o que desapareceu junto
com a era dos navios encouraçados

amor é o telefone tocando,
a mesma voz ou uma outra
voz mas nunca a voz
correta

amor é traição
amor é o incêndio dos
sem-teto num beco

amor é aço
amor é a barata
amor é uma caixa de correio

amor é a chuva sobre o telhado
de um velho hotel
em Los Angeles

amor é o seu pai num caixão
(aquele que te odiava)

amor é um cavalo com a perna
quebrada
tentando se levantar
enquanto 45.000 pessoas
observam

amor é o jeito que nós fervemos
como a lagosta

amor é tudo que nós dissemos
que não era

amor é a pulga que você não consegue
encontrar

e o amor é um mosquito

amor são 50 lançadores de granada

amor é um pinico
vazio

amor é uma rebelião em San Quentin
amor é um hospício
amor é um burro parado numa
rua de moscas

amor é um banco de bar vazio

amor é um filme do Hindenburg
se retorcendo
um momento que ainda grita

amor é Dostoiévski na
roleta

amor é o que se arrasta pelo
chão

amor é a sua mulher dançando
colada com um estranho

amor é uma senhora
roubando um pedaço de
pão

e o amor é uma palavra usada
muitas vezes e
muitas vezes
cedo demais.


Charles Bukowski


Escrito por Caio Carmacho às 09h04
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esta mão que me escreve
há tanto
e tenta
dizer o que a outra
cala, não consente
segurando
o sonho
a caravela, o delírio
o incrível hulk
que pode rebentar as costuras
os costumes
que pode
incendiar a casa
o próprio corpo
e avançar
pelo espelho adentro
contra si mesmo;
esta mão que segura
por debaixo da mesa
atrás do pano da ópera
Mr. Hyde ou o poema
escondido
que resfolega
e se debate
querendo entrar em cena
soltar a voz
os cachorros, as cachoeiras
o galope do apocalipse
o fogo, a fonte, o terremoto;
esta mão, sinistra e secreta
que segura
a hemorragia
no punho cerrado
as rédeas dos cavalos
a carruagem
enquanto essa que me escreve
se contenta apenas
em vestir a luva
da outra, no espelho
e fingir que troca de lado
e de veias
para tocar, na outra margem
o derradeiro tambor
do coração



Escrito por Caio Carmacho às 09h00
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