NOUTRATEZ


Achadouros

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade.
A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o
tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com
as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do
nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo.
Justo pelo motivo da intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o
nosso quintal é outra coisa. Aquilo que a negra Pombada, remanescente
de escravos do Recife, nos contava. Pombada contava aos meninos de
Corumbá sobre achadouros. Que eram buracos que os holandeses, na
fuga apressada do Brasil, faziam nos seus quintais para esconder suas
moedas de ouro, dentro de grandes baús de couro. Os baús ficavam
cheios de moedas dentro daqueles buracos. Mas eu estava a pensar em
achadouros de infâncias. Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira
do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente
cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar
no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros de
infância. Vou meio desmentado e enxada às costas a cavar no meu
quintal vestígios dos meninos que fomos. Hoje encontrei um baú cheio
de punhetas.


Manoel de Barros



Escrito por Caio Carmacho às 19h07
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homenagem a ws

a palavra circunscrevendo a palavra circuncisão do prepúcio do sentido do duplo sentir do siso da bílis sibilante sublunar
a palavra enquanto motor radiador graxa gasolina choque de ordem
o poeta atravessa o século na faixa de pedestres (jogo de amarelinha)
a lamborghini preta da contemporaneidade se choca com seu corpo
o poeta é feito de ar mas ainda assim acaba na UTI
pessoas gritam mandingam entoam versos mantras – fernando, pessoas
o poeta:    - meu reino não é deste mundo
o poeta queria fazer uma tatuagem de henna: ‘não contém glúteos’
queria esgotar a caixa de gordura do planeta
queria fazer lavagem cerebral e luzes no cabelo
o poeta-sol se põe para nascer novamente
 
o poeta VIVE – O POETA MENTE - TRANSCENDE, o poeta É


caio carmacho



Escrito por Caio Carmacho às 19h02
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february mon amour

janeiro não disse a que veio.
mas fevereiro bateu na porta
e prometeu altas coisas.
'como o carnaval', ele disse.
(fevereiro é baixinho,
tem 1,60 e usa costeletas.
faria melhor propaganda
do festival de glastonbury.)
pisquei ligeira nas almofadas:
'nem tô, fevereiro.
abandonei o calendário.'
‘você é um saco’, ele disse.
e foi cheirar no banheiro.


angelica freitas



Escrito por Caio Carmacho às 18h59
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intervalo comercial entre duas comédias

sugiro que por trinta segundos você esteja alegre.
faz calor, mas não importa.
há um idílio, lido lento.
a tevê anda desligada
há muito
você não se importa.
há vinhedos pelo mundo, pelas terras deste mundo
e os povos são todos você.
há o quieto das tréguas
das violências
só as cigarras
cantando porque morrem também.

já azedou
o leite na geladeira?
está devidamente servida
a mulher que gosta de carinhos espontâneos?
estão as nações todas
confortáveis dentro de suas fronteiras?
o que está para acontecer


victor heringer



Escrito por Caio Carmacho às 18h52
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montauk

por detrás da cortina que eu ainda
não instalei você vai abrir a porta
que ainda falta construir vai passar
por um corredor que um dia ainda
há de haver e dizer coisas lindas

que eu não vou ouvir.


gregorio duvivier



Escrito por Caio Carmacho às 18h49
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para um coração colado com durepoxi

há vida ainda

ávida por uma birita

por uma virilha

por uma mobília

por uma cabrita

ainda vida há

no mar na rua na banana na enciclopédia no farfalhar

vida que começa vida que segue vida inquieta pós-vida

háinda?

pois sim, um soco um tombo um brinde um toco

vida de cão de vaias e vísceras

renovando conceitos aparelhos convênios alegrias

tomando banho de lua de sal de rosa de sol de chuva

rindo alto nas avenidas

obliterando tristezas

sublimando desejos

cicatrizando feridas

de água-viva

desvios - atalhos - vias

vidavidavida

seja sempre bem-vinda!

 

caio carmacho



Escrito por Caio Carmacho às 18h44
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bolinhos de vento

pegue um lápis e marque um ponto
no centro de uma folha
a solidão é tudo o que está em volta


Alice Sant'Anna



Escrito por Caio Carmacho às 18h38
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CARNAVALHA

velha festa da carne exposta
do corte que deixa tudo à mostra

que avacalha a pista
que libera a crosta

que desata o cordão do crachá
o nó da gravata

que deixa nua a patota
e veste a rua de bravata

que vale à pena cada pluma
cada cena de ciúme

catapulta de perfomances
e perfumes

...

cada santa
cada puta
cada vagabundo
e cada vagalume
canta um samba de raíz

a mil ou de marcha ré

de pileque
no palanque
no pique
a pé

cadáveres vivos
desejam-lhe boas-vindas

da sexta-feira festeira
a derradeira quarta de cinzas



Tomás Paoni



Escrito por Caio Carmacho às 18h34
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molhar as plantas

bruna beber por gabriel pardal



Escrito por Caio Carmacho às 18h30
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Mudança

O deus de uma casa
não é igual ao deus de outra casa.

Dois terços de mim são raízes,
nenhum fôlego é alicerce.

Mudar é um enigma
só para plantas.


andré ricardo aguiar



Escrito por Caio Carmacho às 18h24
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a antiga relação entre as coisas ser apenas a antiga relação

entre as coisas
é o que quer dizer o peso de uma tatuagem apagada
logo depois passei simultaneamente a duvidar daquilo que

chamamos empréstimo daquilo que chamamos
e o que seria um longo bilhete a ser achado dentro da

geladeira apenas começava
daquilo que chamamos elaboração do luto
assim a antiga relação com o antigo ser apenas a antiga

relação com o antigo
é o que quer dizer o peso de uma estrela apagada sob o qual

o seu ombro às vezes vacila


Luca Argel



Escrito por Caio Carmacho às 18h16
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enchemos a vida
de filhos
que nos enchem a vida

um me enche de lembranças
que me enchem
de lágrimas

uma me enche de alegrias
que enchem minhas noites
de dias

outro me enche de esperanças
e receios
enquanto me incham
os seios


Alice Ruiz



Escrito por Caio Carmacho às 18h09
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