NOUTRATEZ


Não sei

Não sei porque diabo escolheste
janeiro para morrer: a terra
está tão fria.
É muito tarde para as lentas
narrativas do coração,
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.
Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal. Paciência,
querido, também Mozart morreu.
Só a morte é imortal.


Eugénio de Andrade



Escrito por Caio Carmacho às 20h16
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Mesa

Mais importante que ter uma memória é ter uma mesa
mais importante que já ter amado um dia é ter uma mesa sólida
uma mesa que é como uma cama diurna
com seu coração de árvore, de floresta
é importante em matéria de amor não meter os pés pelas mãos
mas mais importante é ter uma mesa
porque uma mesa é uma espécie de chão que apoia
os que ainda não caíram de vez.


Ana Martins Marques



Escrito por Caio Carmacho às 20h03
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Vietnã

Mulher, como te chamas? - Não sei.
Quando nasceste, tua origem? - Não sei.
Por que cavaste um buraco na terra? - Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida? - Não sei.
Por que mordeste o meu anular? - Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. - Não sei.
De que lado estás? - Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. - Não sei.
Existe ainda a tua aldeia? - Não sei.
E estas crianças, são tuas? - Sim.


Wislawa Szymborska



Escrito por Caio Carmacho às 19h11
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nunca abati um porco

sou menos corajoso que você
nunca nem ouvi o grito do porco
antes do abate
dizem que parece uma pessoa gritando

não tenho medo de barata já matei várias
mas jamais jamais conseguiria abater um porco
a linguiça que como traz embutida
essa covardia original.


Rafael Mantovani



Escrito por Caio Carmacho às 19h04
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Steintâneos

Uma rocha ou uma roda ou uma pedra uma seda ou um seixo
ou um caminho? Uma rosa.

Parece que você descobriu, descobriu e descobriu alguma
coisa: você descobrindo alguma coisa enquanto descobria
aquela coisa: alguma coisa.

Coisa alguma é coisa. Coisa é uma palavra. Faça-a.

As palavras que você usa são o que você é. É você quem as
usa, as palavras que você usa e são usadas por você e que são
o que você é.

Os limites deste mundo.


Rodrigo Garcia Lopes



Escrito por Caio Carmacho às 19h01
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contranarciso

paulo leminski por arnaldo antunes



Escrito por Caio Carmacho às 18h51
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passé composé


subiu as escadas
pra perguntar sobre as palavras
derrubadas pelo meu sotaque

afirmei que meu amor é
enorme, um móbile
perdido entre arandelas;

disse que meu amor é
firme, retorna com maçãs
e canela nas pernas;

se perguntasse sobre a
fertilidade, os perni-
longos, a falta de sorte,

responderia que meu amor é
forte, chacoalha as árvores
sempre que parte.


ana guadalupe



Escrito por Caio Carmacho às 10h35
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Lista de preferências

Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, as insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.


Bertold Brecht

Tradução: Paulo Cesar Souza



Escrito por Caio Carmacho às 10h32
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Postal

Daqui a 30 anos, digamos,
que alguém leia este poema.
Todos os pequenos laços
que o ligam ao mundo
fora dele e à vida de um
poeta fudido entre milhões
de pessoas lugares motivos não estarão
mais aqui para socorrê-lo.
Daqui a 30 anos a coisa
será somente a coisa mesmo.
Uma cápsula amputada do tempo,
um bife arrancado do amor.


marcelo montenegro



Escrito por Caio Carmacho às 10h29
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O peido

Para todos os funcionários
que se dizem competentes
e exercem cargo de comissão…
um peido.

Daqueles podres
Que saem das entranhas.
Peido sem som, os piores.
Peido para um funcionário sorridente.

E tão bem situado.
Dos que compram casa própria com fundo de garantia
e têm assistência médica de graça.

Para esse funcionário-família
e com bom seguro de vida,
meu peido.


Rogério Skylab



Escrito por Caio Carmacho às 10h26
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amar não é

everton behenck



Escrito por Caio Carmacho às 10h17
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